É difícil falar de nós mesmos. Quem já teve que fazer isso sabe disso. Sei que posso exagerar e falar tão bem de mim que nem a minha própria mãe acreditaria. Por outro lado sei que posso ser tão modesto a ponto da minha mãe dizer “filho, você é bem melhor que isso”. Certa vez, ao dar uma palestra sobre empreendedorismo quando eu tinha 27 anos, eu disse que ainda não sabia o que fazer da vida e complementei dizendo “não porque eu não gosto de nada, meu problema é querer fazer tudo ao mesmo tempo”. Então um cara que me assistia levantou e disse “eu tenho o mesmo problema que você”. Naquele dia eu descobri que gostar de tudo e querer fazer tudo ao mesmo tempo é o meu problema.
Nasci numa família que trabalha com restaurantes desde 1964. Eu sou de 1978. Isso quer dizer que passei a infância, a adolescência, a juventude e provavelmente passarei o resto da vida ligado à comida, bebida, mesas fartas, cozinheiras, garçons, clientes e amigos que nos visitam. Mas nem só de “cheiro da panela da nona” o dia a dia é feito. Quem vive a vida de restaurantes abre mão de finais de semana, noites de sexta-feira, noites de sábado, feriados, etc. Sabe aquela frase que diz “enquanto a gente trabalha você se diverte”? Então... O estresse gerado por um restaurante é o fator que mais faz novos proprietários saírem desse ramo. É o tal do “não agüento mais. Isso é coisa pra louco”. Sim, eu sei que é. E assim também me chamam. “Beto, você é louco”.
Mas minha loucura não é só por eu ser dono de restaurantes e por querer abrir mais outro e mais outro. Também me chamam de louco quando começo a contar sobre algumas aventuras que eu fiz por aí. Comecei a viajar de bicicleta por perto de casa quando eu ainda não tinha nem juízo (não que hoje eu tenha, mas me refiro àquela idade na qual os pelos ainda não começaram a aparecer). Eram distancias curtas, de 80 ou 100 kilometros, até a praia ou até a chácara. Mas a coisa evoluiu e, numa dessas vezes, cruzei a America do Sul, de costa a costa, pedalando, fazendo 3.500 kilometros. Depois, junto com a juventude, vieram as viagens de carro e de moto. A mais longa dessas foi uma viagem de 100 dias e 30.000 kilometros, que fiz de Curitiba ao Alasca, junto com meu irmão Lorenzo. Notei com o tempo que nem de louco me chamavam mais, as pessoas apenas duvidavam. Eu já tive a minha fase de duvidar. Duvidei de mim mesmo que eu faria qualquer uma dessas viagens. Eu comprava um mapa, abria na minha frente, e traçava uma rota com o dedo: “duvido que eu consiga chegar ate aqui.” E assim as viagens saíram do mapa e viraram realidade.
Hoje o mapa parece menor e minhas viagens parecem absolutamente viáveis para qualquer pessoa do mundo. Mas o medo nunca acaba e é ele que me deixa vivo. O mapa é tão grande que eu gostaria de ter mais vidas para vive-lo por inteiro. Quando eu penso em novas rotas eu sonho e tenho pesadelos. Eu perco o sono a noite e sonho acordado de dia. Isso está parecendo o discurso daquela criança que espera o Papai-Noel o ano todo, mas sabe que no fundo sente medo dele. Que assim seja. Que essa criança se mantenha eterna dentro de mim.



